Por Ismael de Bastos

Contra fatos não há argumentos, certo? Não nos dias atuais.

Hoje, um observador atento aos fatos como eles acontecem e as notícias como são dadas, mostradas e difundidas, tanto pelas mídias oficiais quanto e principalmente pelas redes sociais, pode perceber que eles (os fatos) são apenas detalhes que passam despercebidos pela opinião pública, ficando as convicções, paixões, intuições e inclinações particulares e ideológicas num plano principal, protagonizando a pauta de assuntos diários que movem os ódios, paixões e desejos humanos.

As transformações ocorridas no século XX, período que trouxe uma rápida transformação do mundo, construindo estruturas sólidas em torno de uma verdade sólida (que também não quer dizer absoluta) começa a ser abalado no pós-guerra, mais precisamente, a partir da contestação do status quo da década de 1960, onde o supostamente “perfeito” modelo ocidental de sociedade começa a se perder em meio a protestos sociais, se agravando com as inevitáveis crises capitalistas dos anos 1970.

Depois do pós-guerra, tudo se tornou pós, e tudo o que parecia sólido e rígido começou a derreter nessa nossa modernidade líquida.

Sabemos, é claro, que certas verdades absolutas e rígidas nem sempre se mostraram tão absolutas, embora buscassem a rigidez, pois foram naturalizações de condicionamentos e construções sociais ao longo do tempo que fez com que a sociedade se encaixasse artificialmente dentro de um espectro político bipolar de Guerra-Fria, que por sua vez, estava dentro de um contexto histórico mundial.

No atual mundo multipolar, o cenário de certas verdades absolutas se sustentam em fatos que seguem uma lógica turva e não obedecem a um padrão lógico minimamente científico, tampouco verdadeiro, beirando o absurdo que se espalha nas redes sociais, em portais duvidosos, ou sentimentos exacerbados de crenças, ideologias ou paixões humanas que se sobrepõem a verdade.

Segundo The Economist, a pós-verdade foi a palavra do ano de 2016. Reportagem de CartaCapital de janeiro de 2017 diz sobre a pós-verdade: “Não seria então, exatamente, o culto à mentira, mas a indiferença com a verdade dos fatos. Eles podem ou não existir, e ocorrer ou não da forma divulgada, que tanto faz para os indivíduos. Não afetam os seus julgamentos e preferências consolidados”.

Em O Globo de novembro de 2016: Pós-verdade quer dizer “algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”.

Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos. Mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é a verdade.

Podemos afirmar que o que se considera pós-verdade encontrou nas redes sociais seu local perfeito de disseminação e proliferação. Por meio de portais maliciosos, ou delírios subjetivos dogmáticos, ideológicos e preconceituosos, os boatos se disseminam. Todavia, não podemos nos esquecer que também os meios de comunicação contribuem para essa difusão, com uma técnica mais refinada bem ilustrada por uma propaganda da Folha de S. Paulo dos anos 1990: “É possível contar um monte de mentiras, dizendo só verdades”.

Além disso, supostos intelectuais que aparecem em programas e jornais de rádio e televisão e possuem blogs em grandes portais midiáticos fazem esse trabalho. Outros escrevem livros e certos manuais politicamente incorretos e constroem uma outra narrativa que desafiam a História, as ciências e consequentemente, a verdade.

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