Um ex-ministro da Economia socialista que, mais tarde, fundou um partido liberal à sua imagem e semelhança explicou certa vez a arte e o modo de criar uma sociedade de mercado: “Não tentem avançar passo a passo. Definam claramente seus objetivos e se aproximem deles em saltos qualitativos, para que os interesses de classe não tenham tempo de se mobilizar e atrapalhar vocês. A rapidez é essencial e nunca se vai depressa o bastante. Iniciado o programa de reformas, não parem até vê-lo concluído: o fogo do inimigo perde em precisão quando tem de atingir um adversário sempre em movimento”. Emmanuel Macron? Não, Roger Douglas, ministro das Finanças da Nova Zelândia entre 1984 e 1988, um ano após deixar o cargo. Ele dava então as receitas da contrarrevolução que seu país acabava de viver.1

Cerca de trinta anos depois, o presidente francês manipula todos os velhos cordões dessa “doutrina de choque”. Empresa Nacional das Ferrovias Francesas (SNCF, na sigla em francês), serviço público, hospital, escola, direito trabalhista, fiscalização do capital, imigração, TV pública: para onde olhar e como resistir quando, sob o pretexto de uma catástrofe que se aproxima, uma dívida prestes a explodir e a “vergonha da República”, a engrenagem das “reformas” gira a todo vapor? As ferrovias? Um relatório confiado a um compadre retomou o inventário das preces liberais até então não atendidas (fim do estatuto dos ferroviários, transformação da empresa em sociedade anônima, fechamento das linhas deficitárias). Cinco dias após sua publicação, uma “negociação” teve início para disfarçar a medida ditatorial que se queria impingir aos sindicatos. É necessário se aproveitar sem demora do clima de desmobilização política, de divisão sindical, de exasperação dos usuários diante dos atrasos, acidentes, péssimo estado de conservação das linhas, preço exorbitante das passagens…, pois o ministro dos Transportes quer “rapidez na ação”. Quando surge a oportunidade, “nunca se vai depressa o bastante”, como insistia Douglas.

O governo francês conta igualmente com as notícias falsas das grandes mídias para disseminar “elementos de linguagem” favoráveis a seus projetos. A ideia – aceita imediatamente depois de divulgada – de que “a SNCF custa mil euros a cada francês, mesmo àqueles que não tomam trem”, lembra o famoso “cada francês pagará 735 euros para liquidar a dívida grega” que, em 2015, contribuiu para o sufocamento financeiro de Atenas pela União Europeia.

Às vezes, a verdade vem à tona, mas tarde demais. Inúmeras “reformas” da previdência foram justificadas pelo aumento geral da expectativa de vida. No entanto, um estudo oficial acaba de concluir que, “para as gerações de 1951 e seguintes”, isto é, 80% da população francesa, “o tempo de vida como aposentado deverá cair um pouco em comparação com o da geração de 1950”.2Ou seja, um progresso histórico acaba de se inverter. Esse tipo de informação não feriu nossos tímpanos. E Macron não nos avisou que era “urgente agir” nessa frente…

 

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.

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