A intervenção militar da Rússia na Síria em 2015 era facilmente dedutível. Durante o primeiro ano do conflito (2011-2012), o Kremlin acreditava que o regime de Bashar al-Assad conseguiria superar a tempestade, desde que estivesse protegido contra ingerências externas. Essa ilusão se dissipou à medida que os confrontos se agravaram. Moscou tentou então tomar providências para que Damasco e a comunidade internacional se voltassem para um compromisso. Os líderes russos começaram assim por estabelecer uma distinção entre Al-Assad e o Estado sírio. Advertidos pela explosão da Líbia com a queda do regime de Muamar Kadafi em 2011, eles tinham como prioridade proteger as instituições sírias, mas, ao mesmo tempo, mantinham a convicção de que apenas Al-Assad poderia impedir o desmantelamento do Estado sírio. Isso não significava, no entanto, que permaneceriam eternamente presos à pessoa de seu chefe.

As autoridades russas nunca deram total confiança a Al-Assad. Elas não se esqueceram de que, em 2000, após sua chegada ao poder, ele tinha tentado uma aproximação com a Europa, em particular com a França. Foi somente quando essa tentativa fracassou, sobretudo por causa da presença síria no Líbano, que ele se voltou para a Rússia. Elas se lembram também que, nos anos 1990 e 2000, Damasco não deu nenhuma importância aos pedidos de Moscou com relação aos rebeldes chechenos que haviam fugido para a Síria após terem cometido ataques contra militares e civis russos. Moscou permanece, portanto, prudente em sua parceria com Damasco. Em um discurso em julho de 2016, Vladimir Putin declarou que não queria, ao depositar confiança num regime sírio suscetível de mudar de aliados de um dia para o outro, reproduzir o erro que a União Soviética tinha cometido com o Egito: para marcar sua ruptura com a URSS em julho de 1972, Anwar Sadat expulsou sem dificuldades milhares de conselheiros soviéticos.

Em setembro de 2015, as preocupações do Kremlin com as chances de sobrevivência do poder de Damasco foram agravadas em razão da radicalização da oposição síria e de sua progressão em campo. Ele temia então um colapso iminente do regime. Achava que a ajuda militar, tecnológica e econômica que lhe era oferecida só prolongaria sua agonia, sem chegar a salvá-lo. Uma intervenção militar direta e perene representava, portanto, uma solução preferível aos dois seguintes cenários: apoiar Al-Assad em operações militares pontuais e onerosas ou deixar seu poder entrar em colapso. De novo, os dirigentes russos motivaram sua escolha fazendo referência aos precedentes da Líbia e do Iraque, dois países em que, segundo eles, a queda do regime não trouxe nada de bom. Para eles, a Síria não deveria se tornar um novo foco de jihadistas na região.

Bem antes de setembro de 2015, o Kremlin havia colocado a comunidade internacional em alerta contra esse risco. De início, essas declarações se inscreviam especialmente em um plano de comunicação que apresentava o Ocidente como um encrenqueiro no Oriente Médio. Mas a ameaça se tornou real em 2015, quando um número crescente de combatentes estrangeiros vindos da Europa, da Rússia, do Cáucaso e da Ásia central foram engrossar as fileiras da Organização do Estado Islâmico (OEI) e de outros grupos islâmicos na Síria e no Iraque. De acordo com os serviços de segurança russos e analistas independentes, em 2015 cerca de 1.500 a 2 mil combatentes russófonos originários do norte do Cáucaso, do resto da Rússia e das comunidades chechenas do estrangeiro lutavam na Síria ao lado de diversos grupos islâmicos, como a Frente al-Nosra e o Ahar al-Cham. Ainda por cima, esses grupos armados contavam com centenas de pessoas vindas do Azerbaijão e de ex-repúblicas soviéticas da Ásia central, como o Tadjiquistão e o Uzbequistão. Nenhum deles se identificava com a causa da OEI ou da Al-Nosra. Para alguns, a guerra travada na Síria constituía sobretudo uma fase de preparação para os combates a serem conduzidos em seu próprio país.

Um dos principais objetivos da intervenção russa na Síria era restaurar a capacidade militar e política do regime. Assim, os bombardeios aéreos tomaram imediatamente como alvo qualquer grupo que representasse uma ameaça séria para Damasco, aí incluídos aqueles que não eram islâmicos radicais ou não eram qualificados como “terroristas”, sobretudo pelo Ocidente. Mas o Kremlin nunca admitiu isso e afirma, ainda hoje, que só mirava os “terroristas”.

Rapidamente, o uso da força aérea atingiu dois objetivos: de um lado, aumentou as chances de sobrevivência do regime sírio a longo prazo; de outro, tornou impossível a criação pelos exércitos ocidentais de uma zona de exclusão aérea e bastante improvável a intervenção direta deles em campo contra as tropas legalistas. Ao mesmo tempo, trocando informações e tentando coordenar seus esforços militares com outros países, entre os quais os Estados Unidos, o Kremlin continuava a promover a ideia de uma grande coalizão contra a OEI, que envolveria também o regime sírio, pondo fim ao isolamento internacional de Al-Assad. Espalhando suas forças aéreas a partir da base de Hmeimim, a sudeste da cidade de Lataquia, a Rússia reforçava sua posição diplomática, o que significava que nenhuma decisão concernente à Síria poderia ocorrer sem seu consentimento.

Ela perseguia assim um objetivo bem mais ambicioso que a simples salvação imediata do poder. Certamente, a Rússia pretendia de início pôr fim à guerra organizando um diálogo nacional entre o regime e as forças de oposição (à exclusão dos islâmicos radicais e dos grupos de combatentes estrangeiros). No entanto, ela buscava igualmente iniciar esse processo de reconciliação em suas próprias condições, que incluíam a preservação da integridade do território sírio e a formação de uma coalizão contra a OEI, como afirmou Putin na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 2015. Moscou exigia, dessa forma, a preservação das estruturas estatais sírias e só concebia a transformação do regime no âmbito dos mecanismos constitucionais existentes. Em 2016, Putin ainda insistia no processo de paz na Síria, contando firmemente com um tipo de partilha de poderes entre o regime em vigor e os elementos “sadios” da oposição. A destituição de Al-Assad não podia ser uma condição prévia para a abertura de um diálogo nacional.

A queda de Alepo, em dezembro de 2016, deu à Rússia a segurança de que ela poderia orientar o curso dos acontecimentos na Síria e na região. Mesmo a mudança do panorama político norte-americano depois da eleição de Donald Trump não alterou essa convicção. Em 2018, Moscou acredita ter alcançado um de seus principais objetivos: salvar o regime e lhe permitir retomar certas zonas do território. Mas a Rússia ainda não terminou isso e só pode retirar suas tropas ao final do processo de negociações políticas, ainda mais hipotético.

Moscou se atribui uma imagem positiva

Nessa perspectiva avançou a ideia de uma nova plataforma de negociações batizada de Astana (do nome da capital cazaque, onde ocorreram os primeiros encontros) e permitiu-se discutir um cessar-fogo entre Damasco e a oposição, contornando-se o processo colocado em prática em Genebra pelas Nações Unidas. O estabelecimento de um diálogo direto com representantes iranianos e turcos – atores regionais importantes que não tinham sido incluídos antes entre os porta-vozes – fez progredir a ideia de uma solução diplomática do conflito.

A estratégia russa mudou com a queda, no fim de 2017, dos últimos bastiões da OEI. Em dezembro de 2017, Putin chegou a evocar novamente a hipótese de uma retirada parcial da Rússia. Mas o Kremlin não tem ilusões: ele sabe que a OEI está quebrada, porém não completamente destruída, que a guerra civil não terminou e que deverá continuar com seu apoio militar se quiser manter Al-Assad no poder. Em tais circunstâncias, considera bom conservar uma presença armada nesse país, ainda que a fase atual do conflito não exija muitos soldados em campo. Se uma parte das tropas foi repatriada, trata-se sobretudo de um rodízio destinado a adaptar a presença militar às reais necessidades. Além disso, episódios anteriores de retirada mostram que o Exército russo sempre pode aumentar seu contingente quando as circunstâncias locais o exigirem.

O anúncio de uma retirada tinha uma função mais política que militar. Na véspera das eleições presidenciais de março de 2018, Putin preocupou-se em exibir alguns sucessos na cena internacional. Enquanto os países ocidentais prolongavam e endureciam as sanções econômicas em relação à Rússia num contexto de manutenção do status quo na Ucrânia, o Oriente Médio era um dos únicos pontos em que o Kremlin podia se vangloriar de conduzir uma política externa frutífera. Sem parar de afirmar que a presença de suas tropas era apenas temporária, Moscou atribuía a si uma imagem positiva, no momento em que o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, planejava manter uma presença duradoura dos Estados Unidos no nordeste da Síria.

Hoje, os diplomatas russos discutem em primeiro lugar com seus homólogos dos países que têm uma influência direta no campo de batalha sírio, como o Irã, a Turquia e a Arábia Saudita. Durante a visita a Moscou do rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz al-Saud, em outubro de 2017, a Rússia o encorajou a criar um grupo de oposição unido que representaria as forças hostis a Al-Assad nas negociações de Genebra. Em paralelo, o Kremlin intensificou suas consultas com Teerã e Ancara a fim de abordar o tema de Afrin e Idlib, assim como as futuras zonas de diminuição do processo de guerra. Moscou tenta também tranquilizar essas duas capitais, que duvidam de seu engajamento em relação a seus parceiros. Em 14 de novembro de 2017, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, declarou a legitimidade da presença militar iraniana na Síria, sinal para Teerã de que a cooperação com o país é tão importante aos olhos de Moscou quanto aquela mantida com Israel.

Oficialmente, a Rússia condenou a operação militar lançada no início de janeiro de 2018 pela Turquia na região de Afrin. Na realidade, ela abriu o céu para seus aviões e deu seu aval, segundo um acordo tácito com a Turquia: esta última teria as mãos livres na região de Afrin desde que não contestasse o avanço das tropas do regime sírio na zona de Idlib e em Ghouta, último bastião rebelde na periferia de Damasco. O sucesso dessa operação apresentava também o mérito de afastar um pouco mais a Turquia dos Estados Unidos e de outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), como a França, que apoia as forças árabe-curdas.

Ataque de mercenários

Apesar dos bombardeios norte-americanos, britânicos e franceses de abril de 2018 contra instalações militares sírias, Moscou acha que nem a União Europeia nem os Estados Unidos desempenham um papel decisivo. Os estrategistas russos consideram que esses atores não manifestaram uma vontade real de se envolver nos negócios russos e têm muito pouca influência sobre o campo de batalha. Durante o encontro entre Putin e Trump que aconteceu no Vietnã em novembro de 2017, a Rússia conseguiu o que queria de Washington: a garantia de que os Estados Unidos reconheciam Al-Assad como presidente sírio legítimo, respeitariam o princípio de integridade territorial da Síria e o princípio de diminuição dos conflitos entre os beligerantes e continuariam a apoiar o processo de Genebra.

Em troca, Putin jogou o jogo de seu homólogo norte-americano, que faz da luta contra o terrorismo na região sua prioridade. Na declaração comum feita pelos dois países, a Rússia reafirmou sua vontade de combater a OEI até obter uma vitória total com a ajuda dos Estados Unidos. Em resumo, Moscou só vai concordar em falar do futuro da Síria, para além dos temas abordados no Vietnã, se os norte-americanos procurarem se envolver mais na política interna síria.

*Nikolai Kozhanov é professor de Economia Política do Oriente Médio da Universidade Europeia de São Petersburgo e pesquisador associado no programa Rússia-Eurásia do The Royal Institute of International Affairs, Chatham House (Londres).

Veja o mundo com informação

Comentários

comentarios

Share This